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25/01/2026Por Carlos Fernandes, do Ongrace

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Sentimentos de inferioridade, queda na autoestima, crises de ansiedade e acessos de tristeza – todos esses comportamentos, antes restritos a determinados momentos e a situações específicas da vida, passaram a ser frequentes no cotidiano de muita gente. Basta abrir as redes sociais, e elas estão lá: pessoas que nem sequer conhecemos exibem imagens de viagens, compras, festas e várias outras situações que sugerem uma vida realizada, cheia de privilégios e consumo. É uma verdadeira exposição de “vida perfeita”, onde o que vale é ostentar experiências prazerosas e o que se habituou a chamar de lifestyle de moda, gastronomia, lazer, moradia – ou, colecionando “momentos”, para todo mundo ver.
Entre as imagens idealizadas exibidas nas telas dos smartphones e a realidade de quem as consome, há um distanciamento que frequentemente provoca desconforto emocional. A exposição contínua a registros de mesas fartas, roupas de grife e viagens a destinos paradisíacos estimula a comparação quase inevitável e alimenta frustrações. Esse sentimento ganhou nome: FOMO, sigla em inglês para Fear Of Missing Out, que significa o medo de ficar de fora. Embora não seja classificado como um transtorno psicológico, o fenômeno tem atingido um número crescente de pessoas, impulsionado pela hiperexposição promovida por influenciadores digitais que utilizam esse recurso como estratégia para ampliar curtidas, engajamento e vantagens no ambiente virtual.

Especialistas em comportamento humano têm se dedicado, nos últimos anos, a identificar esse sentimento e a trazer respostas clínicas a quem se sente mal com essas comparações. “Quando alguém posta algo lindo e recebe curtidas, elogios e comentários, isso libera dopamina, neurotransmissor que dá sensação de prazer e recompensa”, explica a psicóloga Renata Monteiro, do Rio de Janeiro. “Então, o cérebro aprende a sequência: ‘postei, fui aprovado, vou postar mais ainda’”. É um processo conhecido como comparação social ascendente. Ela explica: “Quando nos comparamos com alguém percebido como ‘melhor’ do que nós, tendemos a sentir inferioridade, inadequação ou fracasso”. Há uma resposta encefálica – regiões cerebrais ligadas ao fracasso e à ameaça são ativadas e liberam o cortisol, o que amplifica a tensão emocional”, diz a psicóloga, que tem formação em Terapia Cognitivo-Comportamental e especialização em Neurociência e Neurociência da Aprendizagem.
Renata acredita que as redes sociais viraram um lugar de competição de vida, no qual ninguém quer passar imagens de cotidiano normal – aquela rotina de trabalho, carências ou rotinas tediosas. “Muito dessa ‘perfeição digital’é só insegurança embrulhada para presente”, compara. Por outro lado, para quem consome esses conteúdos, o resultado pode ser emocionalmente tóxico. “Essas comparações geram distorções cognitivas. É o caso das generalizações de que a própria vida não vale nada, da leitura mental de que todas as outras pessoas são felizes e a catastrofização, quando o indivíduo vê a si mesmo como um fracasso. Isso impacta o autoconceito, especialmente entre pessoas que já têm autoestima baixa”. A psicóloga recomenda dar uma pausa nas redes e seguir, apenas, perfis que trazem inspiração: “Menos gatilho, menos comparação. Além disso, liste três coisas boas de sua vida. Isso muda o foco da falta para a abundância”, conclui.

Não por acaso, artistas, famosos e grandes empresários costumam atrair milhões de seguidores em suas redes sociais. Afinal, demonstram uma existência de sucesso permanente, na qual acessos privilegiados e experiências invejáveis parecem ser a regra. “Dentro das redes sociais, você pode escolher mostrar só aquilo que você quer”, lembra a empreendedora Natália Lopes Alexandre, administradora de uma agência de criação. “Acredito que a falta de identidade firmada faz com que os jovens de hoje sejam mal posicionados; afinal quem não quer viver uma vida perfeita?”. Antenada com o universo digital – Natália exerce a coordenação de comunicação na Igreja Internacional da Graça de Deus em São Paulo -, ela conhece bem o assunto. “Quando era mais nova, houve um tempo em que a comparação era uma vilã para mim. Eu me questionava se estava me esforçando o bastante para viver o que eu queria viver.”
No seu caso, o comportamento só mudou a partir de um encontro mais profundo com Cristo. “Mas conheço muitas pessoas que, infelizmente, ainda vivem essa realidade e, por isso, andam distantes do propósito de vida delas”. Natália não tem dúvidas de que, assim como em todas as outras áreas, essa questão emocional só pode ser devidamente equilibrada a partir do Evangelho. “O verdadeiro cristão, que conhece e anda com Jesus, não se entristece com a felicidade do outro. Ele não se compara e entende que somos seres distintos uns dos outros, e que cada um vive um propósito dentro do Reino de Deus. Precisamos estar firmados no Senhor por completo, inclusive nossos olhos e sentimentos.”

No entender do pastor Vanderlei Duarte, da Igreja da Graça em Aracaju (SE), a questão é mais complexa do que pode parecer. Não se trata, afinal de contas, de apenas admirar a vida dos outros, mas, sim, fazer uma transferência nem sempre consciente: “Vivemos uma geração que confunde valor com visibilidade. Muitas pessoas não estão buscando prosperidade real, mas validação emocional”. Para ele, as redes sociais funcionam como vitrines emocionais, onde se escolhe cuidadosamente o que mostrar e o que ocultar. “Não se expõe a rotina; expõe-se o recorte mais elevado da vida. Esse processo gera admiração, comparação e, frequentemente, uma idealização que não corresponde à realidade cotidiana.”
Duarte é um ministro do Evangelho com muita presença midiática, que faz das redes e plataformas digitais uma expansão efetiva de seu ministério. Por isso mesmo, leva parte dessa experiência para o gabinete pastoral, onde aconselha muita gente com dificuldades nessa área. “Tenho atendido pessoas emocionalmente cansadas, frustradas e, muitas vezes, culpadas por acreditarem que não estão vivendo o suficiente”. Nessas situações, ele também recomenda reduzir a exposição a conteúdos que alimentam comparação e ansiedade: “Ninguém foi criado para viver medindo a própria vida pela régua do outro”, comenta. “Em seguida, trabalho o resgate da identidade, lembrando que valor não está no que se exibe, mas no que se constrói com propósito”, completa o pastor. Vanderlei Duarte lembra o que a Bíblia recomenda: “O texto de Filipenses 4.11 nos orienta a viver contentes em toda e qualquer situação. Esse contentamento não nasce da comparação, mas da confiança de que Deus conduz cada etapa da vida no tempo certo.”




