
Uma medalha de ouro para a glória de Deus
06/03/2026Por Carlos Fernandes, do Ongrace

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Uma brasileira se tornou a primeira mulher latino-americana a realizar um dos trabalhos mais exclusivos do mundo: redigir os textos da Torá, as Sagradas Escrituras hebraicas. A professora de hebraico Rachel Reichhardt é uma das 18 escribas do sexo feminino, em todo o planeta, autorizadas a realizar esse ofício. O trabalho dela foi entregue em novembro passado, no entanto o projeto para a elaboração do rolo foi iniciado há sete anos com apoio da Comunidade Shalom, instituição israelita sediada em São Paulo.
Cada rolo é composto por, aproximadamente, 65 pergaminhos feitos de couro, costurados com tendões de animais. Escrever a Torárequer preparo extremo e devem ser observadas cerca de duas mil regras. Para se ter uma ideia, um único erro leva à inutilização de todo um pergaminho, e os caracteres têm de ser escritos com pena de ganso e tinta especial, feita à base de uma resina vegetal. Quem escreve também deve declarar as palavras em voz alta, e o Nome de Deus só pode ser grafado com grande reverência.
Nascida em São Paulo e filha de pai judeu que emigrou para o Brasil para fugir dos horrores da 2ª Guerra Mundial, Rachel tem o título de soferet stam, ou escriba de manuscritos, obtido após longo período de estudos no Seminário Rabínico Latino-Americano de Buenos Aires, na Argentina. Ela também é graduada em Letras e se especializou em caligrafia judaica no Instituto Pardes, em Jerusalém. O interesse em se tornar uma escriba surgiu há mais de 30 anos. “Para iniciar o aprendizado, comecei a ler todo o material ao qual tinha acesso, sobre as letras e as leis. Eu não tinha professor, então estudei de maneira autodidata”, lembrou-se, em entrevista à revista de Estudos Judaicos da Universidade Federal de Minas Gerais.
Exercida exclusivamente por homens ao longo dos séculos, a escrita da Toráenvolve devoção, dedicação e esmero, e cada edição completa tem em torno de 305 mil caracteres. No início de sua atividade como escriba, Rachel já havia redigido a Meguilat Ester (o livro bíblico de Ester). Como o texto não tem o Nome de Deus, costuma ser usado como uma espécie de teste para aspirantes ao ofício. Depois, a professora participou da primeira Torádo mundo escrita exclusivamente por mulheres. Agora, o rolo escrito por ela será usado nos estudos e nas cerimônias da Comunidade Shalom e também será exposto ao público.





