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Jogos infantis on-line: novas regras causam protesto e debate

Por Carlos Fernandes, do Ongrace

Exposição a conteúdos impróprios e a crimes virtuais preocupa pais, educadores e autoridades de segurança – Imagem: MNStudio / Adobe Stock

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Uma plataforma de jogos eletrônicos, acessada por mais de 140 milhões de pessoas diariamente, está no centro de uma polêmica que envolve o uso exagerado de tecnologia digital por crianças e adolescentes e os efeitos desses excessos para a saúde mental, os estudos e os relacionamentos familiares. E essa é apenas uma das sinalizações de um problema já identificado por especialistas e famílias que compartilham a diferença de comportamento devido ao uso das plataformas.

Formados por centenas de milhares de opções de entretenimento em uma indústria que não para de avançar, os jogos online já movimentam R$ 13 bilhões por ano no Brasil. Com isso, cresce também a preocupação de autoridades, educadores e famílias. Um dos jogos mais acessados do momento alterou suas regras de uso em janeiro. Essa mudança causou uma movimentação nas redes sociais, com protestos online realizados por crianças e adolescentes contra o influenciador digital Felca, que tem denunciado abusos e alertado sobre as plataformas e seu acesso sem fiscalização.

Por trás das telas coloridas com personagens que encantam o público infantojuvenil, contudo, há um perigo nem sempre percebido. Um dos maiores riscos é o a disseminação de conteúdos impróprios a menores de idade ou o aliciamento para prática de rebeldia contra figuras de autoridade. Em casos extremos, há relatos de automutilação, apologias a crimes e indução ao suicídio. Há plataformas com oferta de milhares de diferentes jogos que podem ser criados pelos próprios usuários, desde brincadeiras de aventuras divertidas até a simulação de confrontos com extrema violência.

É fácil criar uma conta que dê acesso a todos os conteúdos — e, muitas vezes, quem se afirma maior de idade nem precisa apresentar alguma comprovação. A praticidade de acesso torna mais difícil o monitoramento, visto que a maioria das crianças e dos adolescentes entra nos jogos por meio de smartphone. De acordo com o Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo, cerca de 90% das vítimas menores de idade que sofreram aliciamento, abuso ou manipulação de comportamento iniciaram contato com agressores dentro das plataformas de jogos, já que ali o participante cria um avatar, ou uma personalidade simulada, de si mesmo.

Ainda que a situação não chegue a níveis tão extremos, o exagero de envolvimento do público infanto-juvenil com o universo eletrônico já é tema recorrente na sociedade e motiva inovações legais e regras de convivência. Desde o ano passado, por exemplo, o uso de celulares é proibido no ambiente escolar, exceto para tarefas didáticas. Já o Congresso Nacional aprovou, em setembro, o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), que começa a valer em março deste ano. A lei implementa regras de proteção para crianças e adolescentes no ambiente digital, a fim de garantir sua segurança e normatizar o Direito online aplicado ao segmento.

A nova diretriz causou uma onda protestos dentro da plataforma de jogos mais conhecida entre as crianças, por restringir o chat de voz e exigir a verificação para menores de idade, visando evitar interação com adultos, o que foi interpretado pelos jovens como perda de liberdade. No protesto, avatares criados por jogadores reuniram-se em mundos virtuais, simulando passeatas, usando placas com frases, promovendo quebradeira e, às vezes, incêndios cenográficos.

“A Psicologia encara a abordagem do jogo como um risco sério e trata com muita preocupação tudo o que diz respeito aos riscos psicossociais ligados à imaturidade cognitiva das crianças e dos adolescentes”, salienta a psicóloga clínica Alessandra Trotte, do Rio de Janeiro. Ela recomenda atenção a indícios de que algo além da diversão e do aprendizado possa estar envolvendo o menor com o universo digital. “A convivência com a criança precisa ser segura e estabelecer confiança entre as partes.” Com 16 anos de experiência específica com crianças e adolescentes, a terapeuta, que é especialista em Psicologia Infantil, Psicopedagogia e Neuropsicologia, destaca a influência que os jogos costumam exercer neste público. “Eles mexem no comportamento, podendo desenvolver medos, fobias, depressão, automutilação — a ponto de necessitarem, eventualmente, de medicação psiquiátrica.”

A psicóloga Alessandra Trotte fala dos riscos psicossociais ligados a excessos nos jogos eletrônicos – Imagem: Arquivo pessoal

Em países como a Austrália, a proibição de uso dessas plataformas por menores de 16 anos já está sendo aplicada. França, Reino Unido, Espanha e Dinamarca também estudam novas leis para uma verificação mais rigorosa. No Brasil, a fiscalização das novas diretrizes ficará a cargo da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), uma entidade independente que poderá aplicar advertências e multas a empresas que descumprirem as regras impostas pelo ECA Digital. Em casos mais graves, a suspensão ou proibição da atividade no país dependerá de decisão judicial.

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