
Radiologistas criam protocolo de empatia
13/04/2026Por Carlos Fernandes, do Ongrace

COMPARTILHE
Um movimento que mudou a história do protestantismo global está completando 120 anos, e seu legado se faz sentir até hoje na vida de milhões de cristãos no Brasil e no mundo. O Avivamento da Rua Azusa lançou as bases do pentecostalismo contemporâneo e foi decisivo na consolidação da pregação do Evangelho ao longo do século 20, levando a Igreja a alcançar níveis de influência espiritual, social e comportamental jamais vistos nos dois mil anos de história do cristianismo. O epicentro do que ficaria conhecido como o “Século do Fogo” foi em um imóvel na Rua Azusa, em Los Angeles, na Califórnia (EUA).
Nos últimos anos do século 19 e nos primeiros do século 20, as raízes do pentecostalismo passaram pelo trabalho de diversos líderes e pregadores, mas um nome se destacou: William Joseph Seymour (1870–1922). Americano, negro, filho de ex-escravizados e com visão monocular, o servo de Deus foi usado de maneira improvável pelo Senhor. A trajetória de Seymour foi decisivamente influenciada pelo movimento da Fé Apostólica, comunidade de igrejas liderada pelo pregador Charles Parham, dirigente de uma rede de igrejas avivadas no Sul e no Oeste dos EUA. Ele também foi o fundador do Betel, instituição de ensino que se notabilizou pela disseminação da doutrina que enfatizava a contemporaneidade dos dons espirituais narrados no Novo Testamento, como cura divina, profecias e capacidade de falar em línguas estranhas.

Pregador vibrante, Seymour logo atraiu multidões aos cultos que celebrava no movimento de Restauração da Igreja de Deus, em Cincinnati (Ohio), grupo cuja mensagem era fortemente influenciada pela crença no batismo com o Espírito Santo – experiência que os pentecostais atribuem a um revestimento de poder que os capacita a exercer dons espirituais e a levar uma vida mais consagrada a Deus. Os princípios daquela doutrina, há muito esquecida, mas ali revisitada, incluíam a salvação, a santificação, a cura divina e a expectativa do retorno iminente de Cristo.
Já reconhecido por sua capacidade de liderar, o Pr. William foi para Los Angeles, onde se tornou pregador itinerante. Rejeitado em muitos círculos e aclamado em outros tantos, ele foi construindo uma identidade ministerial própria, que se consolidou no famoso endereço da Rua Azusa, nº 312. No local, havia um antigo galpão onde, a partir de abril de 1906, pessoas de todas as partes, inclusive do exterior, participavam das reuniões que se estendiam por horas em uma atmosfera de profunda devoção. Os milagres chamaram a atenção até da imprensa, enquanto barreiras raciais e de gênero eram, momentaneamente, quebradas: brancos e negros se uniam em torno da fé pentecostal, e havia presença de liderança feminina.

“O avivamento da Rua Azusa foi de extrema importância, porque trouxe de volta a fé de que os sinais – que, há muito, não aconteciam na Igreja, como as curas e o falar em línguas – são para os dias de hoje”, define o pastor e professor Rafael Mariano, reitor da Academia Teológica da Graça de Deus (Agrade). “Azusa despertou a fé dos crentes para a verdade de que os céus e a terra passarão, mas as palavras do Senhor jamais.” Mariano lembra que Jesus foi claro ao mencionar que os sinais seguem os que creem, conforme Marcos 16.17,18: Em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão.

A partir do Avivamento de Azusa e seus desdobramentos, igrejas e congregações cristãs em todos os Estados Unidos e em várias partes do globo foram profundamente influenciadas. “Acredito que, naquela época, houve uma confluência histórica, com o Holiness Movement(Movimento da Santidade), o trabalho dos puritanos e a preocupação em dar ênfase à presença do Espírito Santo”, destaca o pastor e teólogo Geremias do Couto, ligado à Assembleia de Deus Ministério Madureira. “Azusa acabou sendo o movimento catalisador e impulsionador, espalhando aquela mensagem.” Ele lembra que aquele momento teve também um forte efeito social, inclusive na questão da segregação racial. “Era um movimento multirracial, com brancos, pretos e asiáticos reunidos em uma só igreja.”
Para Geremias, a ênfase no batismo com o Espírito Santo foi um dos pontos preponderantes daquele avivamento. Ali, iniciaram-se concepções inovadoras, como as línguas estranhas como evidência inicial da experiência. Houve, ainda, outra contribuição importante: “O poder do Espírito reveste o crente e o capacita para a proclamação das Boas-Novas, que é a marca dos pentecostais em todo o mundo, inclusive no Brasil. Os leigos entendem que são responsáveis por ganhar os parentes, os amigos e os vizinhos, levando-os a Cristo. É uma característica nossa.”

De fato, é grande o legado do Avivamento da Rua Azusa, 120 anos depois daquelas espontâneas reuniões em um espaço improvisado, sem a estrutura de igreja como conhecemos hoje. “Além da doutrina clara do batismo no Espírito com a evidência de falar em línguas e do forte impulso missionário, destaco a fé viva e acessível”, enumera o professor de Teologia Eude Martins, integrante da Equipe Pastoral da Assembleia de Deus Belém em Campinas (SP). Tais características fizeram “uma liderança improvável, como a de William Seymour”, alcançar tamanho impacto, diz Martins. “Graças àquela convicção espiritual profunda, mesmo com limitações, o pentecostalismo teve a capacidade de se multiplicar globalmente.”

O advogado e pastor Richard Robespierre, da Igreja Missionária Evangélica Maranata, do Rio de Janeiro, pode se considerar um herdeiro do movimento Azusa. Ele se converteu ao Evangelho nos anos de 1970, época em que muitas igrejas brasileiras experimentaram um avivamento espiritual que as levou a romper barreiras denominacionais e a se lançarem em um amplo esforço evangelístico. Como resultado, o país se tornou uma potência evangélica, no qual cerca de 70% dos crentes se identificam com o pentecostalismo. “Posso falar por mim mesmo. Creio que o maior legado foi trazer de volta a ideia de que é possível receber os dons do Espírito Santo. Essa, talvez, tenha sido a maior contribuição desse movimento. Houve dezenas de avivamentos, com muitas manifestações, mas sem o dom de línguas, profecia etc. Azusa trouxe essa marca”, testemunha o ministro.





