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02/06/2026Por Carlos Fernandes, do Ongrace

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Desde que o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) foi incluído no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, no fim dos anos 1980, a quantidade de diagnósticos da condição tem crescido em escala geométrica. Só no Brasil, estima-se que 11 milhões de pessoas de todas as idades façam parte do quadro. Nesse contexto, um estudo divulgado recentemente aponta que o TDAH não é uma condição única: três diferentes perfis cerebrais foram encontrados em indivíduos com o transtorno, o que indica uma ampla variedade de origens, sintomas e perspectivas terapêuticas.
Publicada na renomada revista científica JAMA Psychiatry, a pesquisa realizada por estudiosos chineses, australianos e norte-americanos já é considerada revolucionária e, embora seus resultados não sejam conclusivos, oferece abordagens inéditas. Durante muito tempo, acreditou-se que o TDAH fosse uma condição com variações no que se refere a características comportamentais, como desatenção, agitação ou impulsividade. Contudo, o novo estudo revelou, por meio de exames específicos, como ressonância magnética, haver três biótipos dentro do TDAH. Portanto, cada um deles tem suas próprias características no cérebro, com diferentes sintomas predominantes.
Vale destacar que, em 60% dos casos, mesmo que diagnosticado na infância e na adolescência, o TDAH acompanha o indivíduo por toda a vida. A pesquisa envolveu em torno de 450 crianças com diagnóstico de TDAH e outras 700 fora desse quadro, todas com idade média de 11 anos. O primeiro biótipo foi identificado em 142 crianças, cujas alterações cerebrais foram encontradas no córtex pré-frontal medial, região ligada ao controle emocional, à regulação do comportamento e à tomada de decisões. Esse é o tipo mais severo, com implicações na desregulação emocional.
Entre as 177 crianças classificadas como de biótipo 2, as diferenças foram encontradas no pálido e no córtex cingulado anterior. Embora apresentassem melhor regulação emocional do que o primeiro grupo, esses participantes foram considerados, por análise neurobiológica, como hiperativos e impulsivos. Já as 127 crianças do biótipo 3 apresentaram alterações encefálicas no giro frontal superior, parte cerebral associada à atenção, à memória e à capacidade de manter o foco. Por essa razão, apresentam maior nível de desatenção.
A equipe de cientistas, liderada pelo médico e pesquisador Qiyong Gong, da Universidade de Sichuan, na China, não levou em conta a anamnese prévia ou as informações clínicas das crianças envolvidas. Ainda assim, foi capaz de identificar grupos com comportamento semelhante a partir da análise dos dados anatômicos dos seus cérebros, na chamada validação convergente – quando duas formas diferentes de observação do mesmo quadro chegam à mesma conclusão. Um dos aspectos mais promissores é que o trabalho possibilita, em tese, definir quais terapias funcionam melhor para cada perfil.





