
Setembro, mês das bênçãos derramadas
29/09/2026Por André Santiago, do Ongrace

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Como traduzir a palavra pastor para uma cultura que nunca criou ovelhas? Ou comunicar conceitos como graça, aliança e santidade quando não há palavras equivalentes na língua local? Questões como essas mostram a complexidade da tradução da Bíblia, um trabalho que pode levar anos ou décadas.

No Dia Internacional da Tradução, celebrado em 30 de setembro, a trajetória das Escrituras em português evidencia um processo construído ao longo de séculos. Segundo José Roberto Nascimento, diretor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), um dos principais marcos foi o trabalho de João Ferreira de Almeida. Seu Novo Testamento completo foi publicado em 1681, e a Bíblia completa em português, em 1753. Em 1808 e 1809, exemplares do Novo Testamento chegaram ao Brasil.
Desde então, foram produzidas diferentes traduções e revisões, como Almeida Revista e Corrigida (ARC), Almeida Revista e Atualizada (ARA), Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e Nova Almeida Atualizada (NAA). De acordo com José Roberto, cada versão tem história, público e proposta próprios. O processo envolve o texto bíblico, a língua receptora e o grupo que utilizará a tradução. A equipe precisa compreender os textos em hebraico, aramaico ou grego e seus contextos, encontrar formas naturais de expressar os significados e testar o resultado com a comunidade local.
Em povos de forte tradição oral, a tradução pode ser feita também oralmente, com gravação, avaliação e revisão pelos próprios falantes. O conteúdo pode chegar às comunidades em áudio, vídeo e formatos digitais. A inteligência artificial e outras tecnologias já auxiliam na comparação de textos, pesquisa de palavras e identificação de inconsistências. Ainda assim, a participação humana permanece indispensável. “A tradução bíblica continua sendo essencialmente um trabalho humano, comunitário e responsável”, afirma o diretor.
No Brasil, um exemplo é o povo Kaingang. O Livro Sagrado completo no idioma nativo foi lançado em 2012 e revisado em 2026. A SBB também lançou as primeiras porções bíblicas em Libras, com Jonas e Rute. Em 2025, 66 línguas receberam, de maneira inédita, alguma porção das Escrituras, alcançando potencialmente 32 milhões de pessoas. Para José Roberto, o impacto vai além dos números: “É uma comunidade que, pela primeira vez, deixa de precisar encontrar a Bíblia apenas na língua de outra pessoa e passa a encontrá-la na sua própria língua.”





